quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

6.
Há uma angústia húmida que me incomoda, a chuva que não cessa de cair e os breves lampejos sol que não duram uma “imperial”. É uma angústia como aquela que se tem quando se está numa casa de banho forrada a mármore preto e que tem mini-toalhas que são de pano, pano mesmo para secar as mãos e à primeira mija ofuscados por tanta higiene e beleza nos escorre um fio de urina pela perna das calças de tecido que só se usam em casamentos. E a esplanada ali, solitária a enferrujar.

Um Homem-Esplanada, esplanada sempre que pode, mesmo quando as condições são adversas, desde que a Esplanada esteja aberta. Mesmo sob as mais ameaçadoras perspectivas de chuva e trovoada.

Aos primeiros pingos de chuva que caiem na imperial indefesa, há uma ânsia e secreta esperança de que a ameaça não se concretize. Pingo após pingo eles caiem, quais esferas do Totoloto com os números que nunca temos.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

5.
Chove lá fora. Está frio. Os dias solarengos de esplanadar ainda vêm longe. E as noite cálidas também. Aos Homens-Esplanda resta-lhes apenas as usas fortalezas de solidão comunitária, os mais pequenos e infectos tascos. Quanto mais parco em dimensões melhor, de modo a reduzir a amplitude de movimentos e a capacidade de infligir danos físicos de um qualquer Homem-Balcão despojado de lucidez.

O Homem-Balcão esse animal mítico e belo como a calçada à portuguesa, deve de ser respeitado e venerado pois foi ele permitiu ao Homem-Esplanada rastejar da tasca até à esplanada. Rastejar, literalmente.

Deus criou o mundo em sete dias, e ao sétimo dia enquanto Ele descansava, com um golo mal anulado ao Benfica o Homem-Balcão irritou-se e partiu-o todo. E Deus quando acordou criou os amendoins e os tremoços para distrair o Homem-Balcão, e como isso não sendo o suficiente criou também a “sande de courato”.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

4.
“Bloody Mary, bloody, bloody Mary” – vodka, sumo de tomate, imaculada concepção, virgens que pairam sobre árvores. O cordeiro de Deus, o leitão do Diabo. Do alto do banco do bar, qual púlpito prego para um cinzeiro cheio de beatas e uma mão cheia de cascas de pistachios em cima do balcão. O copo de vidro grosso lascado com um resto de whisky no fundo e cinza do último cigarro, o último dos últimos. Ou uma mosca afogada.

O estertor das quatro e muitas, só nós os dois, eu e tu. O “Último para o Caminho”. A absolvição e a condenação de um só trago. A angústia do estômago antes de engolir o sapo.

O desmontar do equídeo banco sem ser derrubado. Aqueles quatro ou cinco longos passos até ao “o lá fora”.

“Queres um táxi?” – diz a voz lá do fundo atrás do balcão. Agradeço e digo que não, com toda a convicção de que já não sou um Hércules e de que as minhas costas já não me permitem fazer tamanhos esforços. E aonde é que iria pôr um táxi? Já tenho lixo a mais em casa.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

3.
Há coisas que me fazem espécie, como as vacas loiras nórdicas ou as charolesas inglesas que se agrafam a pretos de tromba esburacada e ar podre em dias de torreira do Sol na Esplanada, a troco de uma ganza. Há coisas que me atrapalham, como ter as mãos desprovidas de álcool e tabaco. Nada me move contra os pretos. Se vierem atrás de mim fujo.

Na verdade gosto tanto de pretos como de brancos, amarelos, castanhos, azuis, verdes… Não gosto! É como gostar de velhinhas de guarda-chuva em punho quando chove. Não se gosta e podemos ficar seriamente feridos. E as “pessoas” nas compras de Natal? Essa corja.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

2.
“Estamos no bom caminho” – disse ele com toda a propriedade de um verdadeiro sidekick de super-herói enquanto limpava o vómito da capa cor de castanho litrosa. Os arranhões na cara denunciavam a luta feroz contra as pedras de calçada. Um vomitava, o outro mijava. Com a cabeça encostada na parede e de pernas afastadas tentava não se pingar com o mijo quente que fumegava enquanto escorria pela parede abaixo na noite gelada. O outro a dois ou a trinta passos de distância, sentado num poial cuspia os restos de arroz de feijão que acompanharam os jaquinzinhos fritos do jantar, enquanto tentava acender um cigarro. Dois passos dados para o lado esquerdo da poça de mijo limpa da mão aquele último pingo na máscara feita de um velho pano de cozinha tingido de “encarnado à Benfica”.

Sentados no poial, esfumaçam os últimos cigarros de uma noite da qual apenas já sobram os candeeiros das vielas ainda acesos, enquanto o dia clareia.

“Bom dia!” – diz a voz grossa que não é a de Deus.

“Bom dia…” – responde, enquanto se levanta desequilibrado e sacode o cú das calças e observa a figura que se encontra na porta com um portentoso bigode.

“Sabes, há dias em que mais vale um gajo nem ir à cama…” – diz, enquanto o outro se levanta atirando a ponta do cigarro para o meio das poças de mijo. A mistura do ar frio matinal e o cheiro a lavado do chão acabado de lavar da tasca fere-lhes as narinas.

“Ó Chefe! São duas… e duas bicas.” – pedem enquanto se encostam ao balcão.
1.
Cruzam os céus da Metrópole com as suas capas de destilados e fermentados, não querem salvar a Humanidade. Não querem ser salvos. Deus não existe, a inutilidade é uma inevitabilidade. A mesa de metal verde corroído de sessenta por sessenta é o seu casulo, onde se urdem planos de elevado grau etílico e se afagam as misérias.


“Estou cego! Não vejo!” – O Sol do fim de tarde cega-me, perfura-me as vistas. Mais um pouco e o gigante de pedra salvar-me-á da cegueira incandescente. Belo e doloroso é o brilho do Sol quase posto sobre um copo de imperial vazio. Mais uma! Nunca é só uma, nunca. Nem por uma única vez. A sina de um Homem-Esplanada é proteger a metrópole qual Cristo-Rei de carne e braços fechados.

É um camelo. É um Ratzinger. As coisas que se vêem nos pedaços de tinta solta do meu mapa-mundo verde enferrujado. Parecem pequenos choques de uma pilha de nove volts na língua os primeiros goles na imperial gelada que acaba de aterrar à minha beira. Um euro. Uma pequena fortuna, que nunca trocaria por uma litrosa morna e mais barata a dividir por doze “espécie-que-somos-bué-da-diferentes-e-alternativos-e-que-fazemos-ceninhas-com-bolas-e-fitas”. Alguns até com fogo. Excepto fazer algo de verdadeiramente impressionante como irromper em chamas. Um cão, dois cães, um arraçado de labrador, o outro rafeiro de camisa para fora, gravata lassa e litrosa na mão, um misto de jovem executivo sub-gerente de agência bancária de esquina com… Nada me resta no copo. Mais um euro. Nunca é sempre uma.

Adoradores do Sol espancam djambés freneticamente, como se o Sol nunca mais se voltasse a pôr. Pouco estranhos aromas povoam os ares. O Sol esconde-se por detrás do rendilhado dos casebres decrépitos da cidade, sendo substituído e pelo tom alaranjado dos candeeiros à antiga alimentados por lâmpadas economizadoras que fazem menos mal a um urso polar do que um flato de uma criança. O Sol desaparece por fim e a noite toma conta da ocorrência. O espancamento de djambés termina. Um certo alívio mistura-se com os aromas canabinóides que pairam sobre as nossas cabeças.
Dizem que a metrópole é uma bela cidade para se andar de bicicleta. Ímpios abstémios! Só mesmo quem nunca provou uma gota de álcool nas suas mais belas e múltiplas formas poderá afirmar tal barbaridade. O doce torpor das pernas, a visão enviesada, os ombros que acariciam as paredes. A Lua está cheia, o copo não.